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13/10/2011

 

 

Foram 33 sessões de quimioterapia, 14 cirurgias, 250 exames e cinco meses de quimioterapia oral. Um câncer na uretra, outro no períneo, mais um no pulmão que levou ao processo de metástase para a cabeça, o fêmur e a escápula. Já venceu todos, com exceção do pulmão, que ainda resiste aos tratamentos. Falar da doença não é problema para o vereador de Campinas Gilberto Celestino Brasio Soares, o Biléo Soares (PSDB), de 52 anos. Quem o conhece sabe como gosta de falar na tribuna da Câmara e também fora dela. Na quarta-feira, ele recebeu o Correio Popular em sua casa para, ao lado da mulher, Rita, das gêmeas Mariana e Giovana, de 13 anos, e do filho Gilberto de 15, falar sobre como tem sido sua vida desde 2005, quando o primeiro câncer, de uretra, apareceu.

Quem pensa encontrar um Biléo abatido e desanimado se surpreende. A doença o abateu fisicamente porque está mais magro, anda com dificuldade, tem lançado mão de uma cadeira de rodas para se locomover e precisa da ajuda da família para o banho e para se vestir. Mas é um homem com imensa vontade de viver. Nessa entrevista, ele conta como está enfrentando essa série de doenças: “Com o amor da minha família e dos amigos e o imenso amor que tenho por Campinas”, resume.

O advogado, que se formou pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), ajudou a fundar o PSDB em Campinas, foi o primeiro presidente da Juventude Latino Americana pela Democracia (Julad), com sede no Instituto Latino-Americano em São Paulo, e está no segundo mandato de vereador. Diz que a doença o transformou, mas quer servir de exemplo para que vejam como a prevenção é importante. Ele é um dos autores de uma lei que incentiva os homens a fazerem prevenção de câncer, colocando na rotina o exame de toque.

Desde setembro, Biléo tem uma agenda restrita. Está proibido pelos médicos de ir a teatro, cinema, igreja. Depois de muito insistir, foi autorizado a ir às sessões da Câmara, o que tem feito quando a quimioterapia não o tira de cena.

Fã de carteirinha do ex-governador Mário Covas e do ex-prefeito José Magalhães Teixeira, Biléo transformou sua casa em gabinete parlamentar e tem estado presente nas sessões importantes da Câmara, como a que cassou o prefeito Hélio de Oliveira Santos (PDT) e a que decidiu pelo afastamento de Demétrio Vilagra (PT). Garante que estará presente na sessão que, dentro de 90 dias, vai decidir se cassa ou não Demétrio. Na última quarta-feira foi à sessão e falou sentado em sua mesa, rodeado pelos demais vereadores. Foi, talvez, a primeira vez em que todos os vereadores pararam para ouvir um discurso.

Correio Popular - Quando você descobriu que estava com câncer?
Biléo Soares - A primeira vez que vi sangue na minha cueca foi na campanha eleitoral, mas deixei para procurar médico depois. E acabei deixando para lá. Depois, quando estava em Brasília, trabalhando com Carlos Sampaio (deputado federal tucano), numa das noites, vi sangue na minha cueca de novo. Aí fiquei preocupado mesmo e procurei o dr. Murilo de Almeida, que hoje é provedor da Santa Casa.

Foram sete meses de investigações e não achava nada. Os remédios mascaravam a doença. Aí um dia ele me disse que havia mais um exame, chato de fazer, chamado uretrocistoscopia. Durante 15 dias, eu fiquei com uma bolsa. Isso foi em 2005. Em dezembro, o dr. Murilo chega e me diz que podia ser que havia acontecido o impossível comigo, porque havia 20% de possibilidade de ser câncer, mas podia ser também doença venérea. Eu tinha certeza que era câncer porque sou muito fiel à minha mulher maravilhosa. Há 2,4 mil casos assim no mundo. No dia 7 de dezembro, fui chamado ao consultório e minha família toda estava lá. Quando entrei, o médico me deu a notícia que era câncer, o mais raro. Ele estava no meio da uretra.

Como você reagiu a essa notícia?
Tive dois minutos de agonia, me perguntando como eu iria enfrentar, o que eu iria fazer com uma família maravilhosa que eu tenho, com as vontades políticas que eu tenho. Fui para a casa da minha mãe e naquele momento eu já havia encarnado uma vontade incomensurável de viver, de lutar e dar exemplo. Eu disse vamos à luta, é momento importante, preciso da solidariedade, compreensão e carinho de todos e, junto com a família e os amigos, eu vou vencer essa batalha contra essa doença que é a mais traiçoeira do mundo e mostrar que é possível trabalhar e enfrentar a doença.

Com o câncer diagnosticado, qual foi o tratamento a que você se submeteu?
Fiz sete cirurgias da uretra. Uma delas eu fiz em São Paulo, com o Dr. Miguel Sluge, que é um importante urologista, e ele também me disse que o câncer que eu tinha era uma realidade. Ele fez uma cirurgia de oito horas e implantou uma nova uretra. Ele tirou a parte lesionada e implantou uma nova uretra usando o tecido do entorno do pênis. A cirurgia foi um sucesso.

Você ficou curado do câncer na uretra?
Fiquei, mas, durante a campanha eleitoral, apareceu um nódulo grande no períneo. Havia a possibilidade de ser um granuloma e aguentei firme a eleição porque achava impossível ser outro câncer. Fiz campanha, com dor, eu mancava porque o nódulo estava situado entre o escroto e o ânus. Fui eleito e, no dia 15 de novembro de 2008, veio o diagnóstico de que era câncer, mas não se tratava de metástase. Fiz mais sete cirurgias e comecei o tratamento quimioterápico com o Dr. Medina (Fernando Medina). Foram 33 sessões de quimio e cinco meses de quimio oral, 55 seções de radioterapia e 250 exames até hoje.

Nesse período, você continuou frequentando a Câmara. Como conseguia?
Eu ia para as sessões de quimio com a minha equipe e trabalhava lá. Fiquei popular na clínica e as pessoas me traziam propostas de projetos, demandas da população. A clínica e minha casa viraram meu gabinete itinerante. Eu ia às sessões, fazia discursos em sessões solenes e nunca perdi um dia de trabalho até 1º de setembro.

O que ocorreu nessa data?
Eu resolvi todas as pendências da pélvis e estava curado. Mas aí apareceu um câncer de pulmão, diagnosticado no dia 1º de setembro. Comecei novo tratamento, fazendo quimioterapia direto e isso me obrigou a ter uma agenda restrita de trabalho. Isso me deixou muito triste. Mas também foi inspirador, porque eu e o Dario (Dario Saadi, vereador pelo DEM) fizemos o projeto de saúde do homem. Durante meu tratamento, dois amigos falavam do horror que tinham a se submeter ao exame de toque e que preferiam morrer a fazê-lo. Achei que tinha que batalhar para acabar com essa cultura arraigada que faz os homens viverem menos. Passei a aconselhar as pessoas a fazerem prevenção para viver mais

Você fazia prevenção?
Eu achava que estava bem e nunca fiz. Nós homens somos medrosos e envergonhados com esses exames. Mas toda a doença me fez crescer. Eu ia às sessões. Os médicos me proibiram de ir a teatro, cinema, jogo da Ponte, na igreja. Só liberaram as sessões da Câmara porque isso é que me dá vida, me revigora. Fiz mais de 80 projetos de lei, requerimentos e mais de 450 discursos. Passei a receber a cidade na minha casa. Pelos menos umas 800 pessoas vieram me visitar nesse período

O prefeito José Roberto Magalhães Teixeira dizia, quando sua doença foi diagnosticada, que as pessoas enviavam tanto óleo bento para ele que daria para fazer uma boa fritada. Você tem recebido esse tipo de coisas também?
Muitas. As pessoas oram, rezam, fazem novenas, trazem óleo, orações de Santa Filomena, Santa Rita, Nossa Senhora Aparecida e eu agradeço muito por isso, por esse carinho.

Como evoluiu esse câncer no pulmão?
O tratamento regrediu o câncer em 60%, mas aí apareceu um nódulo superficial, de 1,5 centímetro, na cabeça. Era metástase. E logo depois apareceu outro nódulo. Esses eu também venci. Eu regredi o câncer no pulmão, estou com todos meus órgãos preservados. Mas apareceu uma lesão no colo do fêmur e sequelas que me atrapalham muito, tenho dificuldade de articular as palavras. A lesão do fêmur era pequena, fiz dez aplicações, que me fadigam muito. Na sequência, comecei a ter dor na escápula. Foram mais de 50 injeções para tentar minimizar a dor. Com tanta medicação, acabei tendo problemas intestinais e precisei, há uma semana, fazer lavagem intestinal que me fez perder quatro quilos.

O que os médicos dizem, ou seja, qual o prognóstico que fazem desse sequência de metástase?
Eu estou saindo de uma crise de mais de dois meses e estou revigorado. Mesmo nesse período todo eu participei dos momentos importantes de Campinas. Estive nas sessão de cassação do Hélio, fiz um discurso mostrando a história de Campinas para convencer meus pares de que vivíamos um momento inigualável para a Câmara.

O que tem movido você nesse período em que o câncer parece não lhe dar trégua?
Estou preparado para tudo. Vou viver. Se me perguntar qual o meu grau de felicidade, eu vou dizer que sou o cara mais feliz do mundo. Sou reconhecido no meu trabalho como homem público e pela luta que estou travando pela cura, em busca de vida e pela mensagem para que outros sigam seus caminhos, sejam felizes. O que me move é o amor pela minha família e o amor muito grande que tenho por Campinas. Estou com as mãos limpas e, embora, graças a Deus, minha família tenha alguma posse, eu sustento minha família com meu salário. Mostro para meus filhos como é ser honesto, o que aprendi com meus pais e com Magalhães Teixeira. O dinheiro não é dos vereadores. Fomos eleitos para zelar pela cidade e somos pagos pelo dinheiro de milhares de contribuintes.

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