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06/03/2011

Cidades

ÓRFÃO ||| FORA DOS EIXOS

Em conflito, PSDB busca novo líder

 

Fora do Palácio dos Jequitibás desde a morte do prefeito Magalhães Teixeira, há 15 anos, partido tenta superar as diferenças internas e recuperar o fôlego político para encarar a disputa à Prefeitura em 2012

José Roberto Magalhães Teixeira, última liderança tucana eleita prefeito de Campinas: disputas colocam em xeque futuro do partido

 
Maria Teresa Costa
DA AGÊNCIA ANHANGUERA
teresa@rac.com.br

O PSDB campineiro está tentando dar a volta por cima e quebrar um jejum de 15 anos fora do Palácio dos Jequitibás. Mas tudo o que tem conseguido até agora é acirrar os conflitos internos que historicamente opõem Jurandir Fernandes, atual secretário de Estado dos Transportes Metropolitanos, e o deputado federal Carlos Sampaio. Desde a morte de José Roberto Magalhães Teixeira, última liderança da legenda eleita prefeito da cidade, o PSDB nunca mais conseguiu chegar ao quarto andar da Prefeitura e caminha para mais uma eleição, em 2012, mergulhado no caos interno.

 

 

Futuro da legenda será testado em reunião na 5ª-feira

 

“Não sei o que falta ao partido, mas sei que o que sobra é conflito. O eleitorado vota em grandes figuras, como Alckmin, Serra. Em Campinas, não temos ninguém que sugira algo parecido”, disse o cientista político Eliézer Rizzo de Oliveira. Ele acredita que não há no PSDB, e nem nos outros partidos, um nome que possa quebrar a hegemonia do prefeito Hélio de Oliveira Santos (PDT) nas próximas eleições, apesar de o prefeito também não ter um nome forte para apoiar. Seu candidato, Carlos Henrique Pinto, teve 21.757 votos na cidade para deputado federal na eleição de 2010 — apenas 3,9%. O único com alguma possibilidade é o deputado federal Jonas Donizette (PSB), que, segundo Oliveira, vem crescendo, tem presença forte e currículo.

O cientista lembra, por exemplo, que Carlos Sampaio tem sido um excelente deputado, mas um candidato sofrível nas eleições para prefeito.

Na eleição de 2000, obteve 20,13% dos votos no primeiro turno e 20,13% no segundo, e perdeu para Antônio da Costa
Santos (PT). Em 2004, recebeu 39,8% dos votos no primeiro
turno, com chances de vencer a eleição, mas acabou perdendo para Hélio. E, em 2008, com uma candidatura de última hora, tendo como vice Célia Leão, amargou o pior desempenho: insignificantes 14% dos votos, dando novamente a vitória a Hélio, agora no primeiro turno.

Célia Leão, conforme Eliézer Rizzo de Oliveira, também tem bom desempenho como deputada estadual, mas sua capacidade de atrair o voto do eleitorado não ameaça a hegemonia de Hélio. Na eleição de 1996, ela teve 20,9% dos votos no primeiro turno e 34,2% no segundo. Perdeu a eleição para Francisco Amaral e nunca mais se candidatou a prefeita.

Outro nome do partido, Jurandir Fernandes tem uma densidade eleitoral desconhecida porque nunca disputou uma eleição. O atual presidente do PSDB e vereador, Artur Orsi, foi eleito parlamentar duas vezes, mas teve apenas 18,6 mil votos em Campinas para deputado estadual na eleição do ano passado. O partido perdeu espaço também na Câmara Municipal: de oito vereadores eleitos em 2004, conseguiu apenas três cadeiras em 2008.

“O PSDB é um poço de amarguras e precisa acordar de um sono profundo de conflitos e divergências que marcaram os últimos 15 anos. Se isso não ocorrer, não teremos a menor chance em 2012”, disse o vereador Biléo Soares, que por três vezes presidiu o diretório de Campinas e, na semana passada, ameaçou deixar a legenda por causa das disputas internas.

O futuro do partido, segundo o vereador, será testado dia 10 de março, quando haverá uma tentativa de consenso na formatação das chapas que disputarão os diretórios zonais em 13 de março. Havia sido acertado anteriormente, segundo Biléo, que seriam
sete chapas de consenso, uma para cada zona eleitoral. Mas, há alguns dias, veio a notícia de que Orsi estava patrocinando a formação de quatro chapas, o que teria provocado atrito dentro do diretório.

São os diretórios zonais que escolhem o comando municipal e a executiva, a serem eleitos em 10 de abril e que, em última análise, definirão quem será o candidato do PSDB a prefeito. Membros do partido trabalham para que haja prévia para a escolha do candidato à Prefeitura.

Os deputados Carlos Sampaio e Célia Leão e os vereadores Valdir Terrazan e Biléo Soares formaram chapas para os zonais. Do outro lado, está Artur Orsi, liderando um grupo de descontentes com a situação atual também com chapas formadas para quatro zonas eleitorais.

Terrazan acredita que ainda será possível o consenso. “Para o bem do partido, não podemos mais viver com tantos conflitos. A união é necessária. Perdemos uma eleição do Carlão (Carlos Sampaio) por incompetência. Abrimos mão de alianças, especialmente com o PMDB. Tínhamos tudo para ganhar e perdemos”, disse. Naquela eleição, de 2004, Carlos Sampaio teve 39,8% dos votos no primeiro turno e Hélio, 22,6%. Perdeu no segundo turno, com 47,3%.

Artur Orsi não quis falar sobre o assunto, alegando que o partido está no meio de um processo sucessório e que seria delicada qualquer análise que fizesse. As questões internas do partido, disse, prefere discutir no partido. Procurado, Jurandir Fernandes não retornou as ligações.

 

 

Sampaio defende ‘chapa da felicidade’

 

Para o deputado federal Carlos Sampaio, o PSDB não pode mais se dar ao luxo de lançar um candidato para ter visibilidade. “É preciso um candidato que tenha viabilidade”, disse. E isso será construído, segundo ele, com a realização de prévias. “Eu não sou candidato natural nem às prévias e nem à eleição”, afirmou. Sampaio reconhece que as disputas internas acabaram enfraquecendo a unidade necessária para vencer a eleição, mas, segundo ele, é hora de o partido formar o que ele chama de “chapa da felicidade” para o diretório que será eleito em 10 de abril.

Essa chapa, na sua avaliação, deveria ser formada por pessoas que vivem o partido, deixando de lado o sistema de cotas, onde cada tucano de renome indica um determinado número de membros. “As pessoas têm que se sentir felizes com essa chapa, se identificar com ela”, afirmou. Para ele, o partido tem nomes para lançar para prefeito—citou Jurandir Fernandes, Célia Leão e Artur Orsi —, mas acha que outros poderão surgir em uma campanha de filiação. Ele disse que a decisão de Artur Orsi de apresentar chapas para os diretórios zonais é legítima. Para ele, existe uma perspectiva promissora de unir, democratizar, fazer o partido crescer, formar o diretório com participação e acabar com os conflitos.

A deputada estadual Célia Leão vai na mesma linha. Ela não tem dúvidas de que será possível apaziguar o PSDB. “Não posso aceitar um partido dividido. Há 22 anos dedico minha vida ao PSDB e não admito outra hipótese que não seja a união. Se não houver essa união, nem sei o que vou fazer”, afirmou. Ela diz que a legenda tem nomes para 2012 e que precisa trabalhar para tirar dela algumas pechas que foram sendo arraigadas ao longo do tempo, como o de ser partido de elite e que os governos estaduais exercidos por Serra e por Alckmin não gostam de Campinas. “Isso não é verdade e temos que desmitificar isso”, disse. (MTC/AAN)

 

O visionário
Quando Magalhães Teixeira foi buscar Jurandir Fernandes no PT para ser o secretário de Transportes de Campinas, a então primeira-dama Thereza Christina brincou com o marido: “Está escolhendo o sucessor, hein?”. Ela sabia o que estava dizendo. Ele, o que estava fazendo. Mas,
após a morte de Magalhães, o PSDB decidiu tomar outro rumo. O preço é pago até hoje pelos tucanos. Grama era um visionário. Vislumbrava as vocações da cidade e buscava parceiros, mesmo que em partidos adversários, para tocar adiante os projetos que colocavam Campinas entre os três municípios com melhor qualidade de vida do Brasil. Ousadia e pioneirismo eram com ele mesmo. Foi assim ao romper com o PMDB e fundar o PSDB, ao investir nos polos de alta tecnologia, ao civilizar o trânsito e ao criar o primeiro programa no País de transferência de renda para os mais pobres, associado à educação. O PSDB perdeu muito com a morte de Magalhães. Mas Campinas perdeu mais. Muito mais.

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