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Ele conta que
passava os recreios sozinhos e os demais colegas se afastaram com medo de
também serem motivo de zombaria. “O mais triste foi quando minha melhor
amiga se afastou com medo de também ser discriminada.” Atualmente, o
adolescente estuda em outra escola e as agressões passaram, mas as marcas da
violência psicológica deixaram cicatrizes. “Ainda tenho medo de que tudo
isso volte a acontecer”, disse.
O drama de F.P.M. não chegou a ser denunciado à polícia e mostra que os
números da violência nas escolas podem ser muito mais graves do que mostram
as estatísticas. A Delegacia da Infância e Juventude de Campinas tem
registrado cerca de 15 casos por mês de violência dentro das escolas da
cidade, entre crimes classificados como bullying ou não. Segundo o delegado
titular, Carlos Semionatto, a maior parte das ocorrências sequer chegam ao
conhecimento da polícia e os dados estão subdimensionados. “A polícia
costuma ser procurada só em última instância. Achamos incorreto isso porque
muitas vezes o agressor já vinha cometendo outras infrações e só denunciam
quando a situação é extrema”, afirmou.
A preocupação do delegado é acompanhada pela advertência da promotora da
Vara da Infância e Juventude Elisa Divittis Camuzzo. Ela afirma que, embora
o Ministério Público (MP) não possua estatísticas oficiais, os casos de
violência escolar vêm aumentando. “Sou promotora há 13 anos em Campinas e
percebo que a situação tem se agravado. Vivemos um conflito constante e isso
me preocupa. Na cidade, existem algumas iniciativas que procuram tratar os
conflitos, mas no momento não tenho percebido resultados, talvez a longo
prazo”, disse.
Os casos que correm na Vara da Infância e Juventude ficam sob segredo de
Justiça, mas a reportagem teve acesso ao processo de um aluno de 13 anos, de
uma escola particular da cidade, que está sendo investigado pelo crime de
tráfico de drogas.
Prevenção
A coordenadora da Taba, uma organização social sem fins lucrativos de
Campinas, Kelly Vanessa Kirner, realiza um trabalho de prevenção à violência
nas escolas municipais da cidade e acredita que a maior exposição dos casos
pela imprensa tem ajudado no combate à violência escolar. “Antes, a maioria
dos casos eram velados, agora não. Infelizmente, as escolas da rede pública
são as que mais sofrem por causa da falta de infraestrutura, mas sabemos que
ocorrem casos na rede privada. O problema é que muitos pais de alunos em
locais mais pobres não costumam enxergar a escola como meio de transformação
social. A ausência de acompanhamento desses pais do dia a dia dos alunos
agrava o quadro”, explicou.
A reportagem da
Agência Anhanguera de Notícias (AAN) esteve na Escola Estadual
Elvira de Pardo Meo Muraro, localizada no bairro Jardim Florence 1,
periferia de Campinas e conversou com pais e alunos. Durante a saída da
escola, a reportagem flagrou dois menores empinando motos na frente do
local, enquanto outras crianças saíam da escola.
O aposentado Miguel Jair, é pai de uma aluna da escola e reclamou bastante
da segurança no lugar. “A segurança aqui é precária, policiamento não tem,
aí essa molecada aproveita aqui”, disse. O motorista de uma van escolar que
não quis se identificar afirmou que a desorganização é comum no local. “Isso
aqui é uma baderna, não tem polícia”, disse. A 2 Companhia do 47
Batalhão de Polícia Militar, responsável pela área, informou que a unidade
possui apenas duas viaturas para atender cerca de 80 escolas estaduais da
região do Campo Grande até a Vila Padre Anchieta e que não tinha
conhecimento do problema em frente à escola.
Ameaças e vandalismo
A diretora da escola, Zilda Aparecida Lyra, informou que, na última semana,
um aluno de 16 anos chegou a ameaçar um professor de agressão, caso ele não
mudasse sua nota. Na ocasião, a ronda policial foi acionada e um boletim de
ocorrência foi registrado. “Temos casos de vandalismos, ameaça a professores
e entre alunos, mas a situação vem melhorando. Nossa escola tem 2 mil alunos
em três turnos e identificamos que o maior problema é a falta de respeito
mútuo. Procuro ser firme no dia a dia para controlar a situação, mas muitas
vezes o problema parte de casa. Tem pais que acham que pelo fato de a escola
ser pública é terra de ninguém, os filhos apenas reproduzem seu
comportamento”, afirmou.
Uma das alternativas encontradas para enfrentar o problema e muito difundida
no Brasil é a Justiça restaurativa. A psicóloga Leni Massei trabalha na Vara
da Infância e Juventude e foi capacitada no programa. A iniciativa, que
reúne as partes envolvidas nos conflitos dentro das escolas, tenta resolver
o problema sem a intervenção da Justiça. “É toda uma ideia de compreensão
mútua . Colocamos ofensor e ofendido para conversar e juntos tentarem se
entender, é uma ótima iniciativa”, afirmou. Segundo a psicóloga, o trabalho
interrompe a ação de criminalização dos desentendimentos dentro das escolas.
SAIBA MAIS
Em setembro do ano passado, foi sancionada pelo prefeito de Campinas, Hélio
de Oliveira Santos (PDT), um projeto de lei do vereador
Biléo Soares (PSDB) que
trata do combate ao bullying. As escolas públicas de educação básica do
município ficam autorizadas a implementar ações interdisciplinares e de
participação comunitária, com a adoção de medidas de conscientização,
combate e prevenção ao bullying.
Bullying virtual rompe os muros escolares
Assédio constante, pela internet ou até mesmo no celular, aumenta
sofrimento
O principal aspecto da violência dentro das escolas que vem crescendo é o
bullying, um tipo de prática continuada de violência psicológica e física
entre alunos. A psicóloga e palestrante Maria Tereza Maldonado, autora do
livro A Face Oculta - Uma História de Bullying e Cyberbullying,
afirma que o bullying sempre existiu e costumava ser encarado apenas como
uma brincadeira de criança, entretanto, com as inovações tecnológicas, os
casos se agravaram e tomaram proporções mais agudas.
“O cyberbullying (prática de bullying utilizando ferramentas
virtuais, como internet e mensagens em celular) é ainda mais devastador,
pois é 24 horas por dia e sete dias por semana. Na escola, as ações de
violência física e psicológica são angustiantes, mas a casa ainda existe
como um refúgio. No cyberbullying, a pessoa chega em casa e as humilhações
estão em perfis falsos de comunidades da internet, em mensagens no celular,
a situação fica desesperadora”, afirmou.
A autora do livro afirma que há casos relatados em que as crises de angústia
se tornam tão graves que chegam a provocar depressão e até tentativas de
suicídio. “Programas que combatam o bullying não podem se limitar a
palestras nas escolas, eles precisam fazer parte do plano pedagógico da
escola, deixando claro que esse tipo de conduta é inaceitável. Quando esses
casos não são tratados, muitos desses agressores, na fase adulta, podem
desenvolver comportamentos de intolerância racial, homofobia e assédio
moral, que é o bullying no ambiente de trabalho”, afirmou.
A pesquisa Bullying Escolar no Brasil, realizada no ano passado pela
organização não governamental (ONG) Plan com 5.168 estudantes nas cinco
regiões do País, mostrou que 29,1% dos alunos sofreram algum tipo de
agressão na escola. A consultora Cléo Fante, uma das coordenadoras do
estudo, afirma que medidas restaurativas devem ser tentadas, mas não pode
haver omissão por parte da escola, quando houver necessidade de denúncia.
“Quando é possível ser resolvido dentro da escola deve ser evitado o
enfrentamento por meio da Justiça, mas isso deve ser avaliado com cautela. A
escola não pode se omitir quando há a necessidade de levar o caso à polícia.
No Brasil, já existem casos, como em Ribeirão Preto e Fernandópolis, onde
escolas foram condenadas por terem se omitido em casos de bullying”,
afirmou. (HB/AAN)
O QUE É
A palavra bullying é de origem inglesa e derivada de bully,
que significa valente, mandão, fanfarrão. O termo compreende todas as formas
de atitudes agressivas, intencionais e repetidas, que ocorrem sem motivação
evidente, adotadas por um ou mais estudantes contra outro(s), causando dor e
angústia, e executadas dentro de uma relação desigual de poder.
ALGUNS CASOS
Na última terça-feira, um estudante de 15 anos foi morto com um tiro nas
costas quando descia de um ônibus na zona Norte de Porto Alegre. Segundo o
delegado responsável pelo caso, Andrei Vivan, o adolescente era perseguido
com chacotas e difamações e havia tirado satisfações com um de seus
agressores. Um amigo do agressor procurou a vítima para revidar e disparou.
O menor se entregou e está recolhido na Fase (antiga Febem).
Em maio deste ano, uma adolescente de 15 anos foi ferida com golpes de
estilete e compasso no rosto por outras duas colegas em Recife.
No bairro da Macaxeira, zona Norte do Recife, também em maio, uma menina de
13 anos foi agredida por uma colega de mesma idade dentro de uma sala de
aula da Escola Estadual Clotilde de Oliveira, no bairro da Macaxeira, zona
Norte do Recife. Em pleno horário escolar, a garota foi trancada por outras
duas meninas e levou chutes, unhadas, socos e mordidas. |