|
Balanço político da greve mostra que ausência do prefeito nas
negociações e radicalização e envolvimento político do sindicato prejudicou
tanto a situação quanto a oposição em Campinas
Anderson Botan
Campinas
Com o fim da greve dos servidores municipais, o balanço político que se faz do
movimento é que mesmo o prefeito Hélio de Oliveira Santos (PDT) tendo sofrido um
desgaste de sua imagem, a oposição, no final, não conseguiu sair fortalecida com
isso, pois também se desgastou ao inflamar os servidores com propostas que
dificilmente seriam aceitas e fazendo o sindicato perder o poder de negociação e
pedir carta branca para decidir na justiça as reivindicações, tirando da
assembléia e dos servidores a decisão final. A avaliação é de algumas das
principais lideranças políticas da cidade.
Foram 20 dias de paralisação, marcados pela ausência do prefeito nas audiências
de negociação e conciliação, deixando a responsabilidade toda para os
secretários. Hélio, muitas vezes, ignorou o movimento dos servidores e inaugurou
obras pela cidade, enquanto alguns setores da prefeitura paralisavam as
atividades ao longo dos dias.
Além disso, atitudes pouco democráticas de seu governo como fechar as entradas
do Paço Municipal com tubos de concreto para não permitir a entrada de carros de
som no local e sitiar o Paço com Guardas Municipais restringindo o acesso de
pessoas na prefeitura, marcou a postura do prefeito durante a crise.
Nesse tempo, a greve foi ganhando força – até a Orquestra Sinfônica aderiu ao
movimento – e os servidores saíam em passeatas quase todos os dias, fechando
ruas e causando transtornos no trânsito de Campinas, que chegou a registrar
recordes de congestionamento. A população foi seriamente prejudicada com as
estratégias grevistas de criar fatos políticos.
Com o endurecimento do governo em negociar, creditando esta posição ao fato de a
greve passar a ter um caráter político, com partidos de oposição utilizando a
greve como palanque para desgastar a imagem do prefeito junto à população, o
movimento foi perdendo força e o sindicato aos poucos perdeu o controle da
greve, já que os servidores foram inflados com os discursos partidários
realizados nos atos políticos e nas assembléias.
Sem entendimento e bom senso das duas partes, a decisão foi parar na esfera
judicial. O sindicato teve que ceder às pressões para que tivesse carta branca
dos servidores para formalizar um acordo, pois também estava sendo pressionado
pela população, descontente com a falta de acordo e por estar sendo prejudicada
com a falta de atendimento em setores importantes como a saúde e a educação.
É bom lembrar que a direção do sindicato está nas mãos do PSB, partido de Jonas
Donizetti - um dos favoritos às eleições de 2012. Com esse quadro negativo tanto
da situação quanto da oposição, nem Jonas Donizetti (PSB), que poderia ter um
ganho virtual com o desgaste de Hélio ficou satisfeito. A avaliação das
lideranças é que, com a condução política do movimento, o prefeito acabou
minimizando os efeitos da greve e ainda terá muito tempo para reverter o quadro
até as próximas eleições.
Já os servidores saem descontentes com o desfecho da paralisação, pois
prevaleceu o reajuste oferecido pela prefeitura, com uma única diferença, quanto
ao reajuste no vale alimentação.
Lideranças
Para o vereador Sebá Torres (PSB) todos saíram perdendo nesta greve. “Ocorreu um
desgaste muito grande. O movimento não trouxe aos funcionários o que eles
queriam. Não receberam o que poderiam ter, e com isso todos perderam. Deveria
ter ocorrido um diálogo maior entre as partes. Toda essa negociação deveria ser
antecipada, com conversas constantes, buscando sempre alternativas”, diz.
Torres discorda da forma como os partidos políticos participaram do movimento.
“Não se deve confundir partido com sindicato. São coisas diferentes. Apareceram
vários partidos para ajudar. Mas quem é o legítimo representante é o sindicato.
Os partidos aparecem fazendo uma oposição, dizendo se solidarizar, mas deveriam
ter apontado soluções mais concretas”, considera.
Já Biléo Soares, do PSDB e
que tem Carlos Sampaio como maior expoente na cidade, considera que esta greve
mostrou que o diálogo não deve ser esgotado. Para ele, o prefeito saiu
desgastado, pois não se posicionou diante de duas greves consecutivas e
principalmente, se silenciou diante dos questionamentos sobre o reajuste dele,
dos secretários e comissionados, que foi de 56% e muito além do que ele oferece
para os servidores. “Campinas vai na contramão da história.
O teto cresce e o piso decresce. A desigualdade está grande entre o maior
salário e o menor salário da prefeitura. O sindicato mostrou ao prefeito que tem
força para manter uma greve, o que fez a prefeitura recorrer ao Judiciário para
resolver a situação. Não há vitoriosos e derrotados.
O sindicato acabou ganhando com o abono salarial no vale alimentação, mas o
servidor perdeu com o salário. Quando se tem uma greve prolongada, há um
desgaste natural. O Legislativo também saiu ganhando ao manter uma posição firme
de que só votaria um projeto justo e ao criar a CEE para auxiliar nas
negociações”, afirma.
Já o presidente municipal do PSOL, Paulo Búfalo, considera que o movimento foi
importante não só para reivindicar um salário melhor, mas para mostrar as
condições de trabalho dos servidores públicos, denunciando as falhas que vêm
ocorrendo no setor.
“A pauta salarial acabou sendo rebaixada, pois a questão financeira foi
considerada apenas no reajuste dos servidores. Quando foi a pauta do governo a
questão não pesou e nem foi avaliado pelos vereadores da base quando deram 56%
de reajuste ao prefeito, secretários e comissionados. A máquina ideológica do
prefeito é muito abastada”, diz.
Para o presidente municipal do PSB, Wanderley de Almeida, em nenhum momento
houve disputa política na greve, somente esteve solidário à luta dos
trabalhadores diante da intransigência do prefeito em negociar e com o sindicato
fazendo o possível para conseguir um acordo justo. “Não travamos uma luta com o
prefeito diretamente, fico feliz de o PSB retomar a luta dos servidores
públicos, comandando o sindicato. O que fica para a cidade é a incoerência de
reajustes dados, para o prefeito e para os trabalhadores. Se isso pode ser tema
de novas discussões, o futuro pode dizer isso. No momento não dá para dizer quem
ganha e quem perde”, salienta o presidente.
Governo
Já o líder do governo na Câmara, Francisco Sellin (PDT), considera que a greve é
uma alternativa do trabalhador de reivindicar melhores condições, mas que neste
caso, a manifestação foi prejudicada com a exploração política dos partidos de
oposição, criticando o prefeito e a administração, o que prejudicou o diálogo.
“A população estava se revoltando contra o movimento”, considera.
Para o vice-prefeito Demétrio Vilagra (PT), a grande vitória da greve foi a
democracia no momento de decidir pelo seu fim e pelos percentuais de reajuste.
Ele considera que foi injusto por parte do sindicato e dos partidos terem
inflado os trabalhadores a ficar contra ao reajuste oferecido pela prefeitura,
comparando com os índices dados ao prefeito e aos comissionados, já que o teto
estava congelado há seis anos e já era alvo de ações na Justiça.
Quanto à participação do PT dando apoio ao movimento, o vice-prefeito disse que
faz parte da história do partido apoiar os trabalhadores grevistas, mas o
partido deixou claro que compõe o governo e entendia a posição da prefeitura
quanto ao valor que seria dado.
“Toda greve é política, não pode fugir disso. Mas o sindicato errou ao dar
palanque para partidos que só inflaram os servidores contra o prefeito, querendo
desgastar sua imagem e tentando favorecer outras lideranças. O prefeito não saiu
desgastado e não vejo que mesmo tendo o PSB como principal comandante do
sindicato, a greve possa beneficiar o deputado Jonas Donizetti, por exemplo”,
disse.
Sindicato
O presidente do Sindicato dos Servidores, Marionaldo Maciel, acredita que o
sindicato tenha obtido uma vitória nesta greve, já que o objetivo do movimento,
que era a reivindicação salarial, teve uma solução benéfica para os
trabalhadores. Contudo reconhece não ser a desejada pelo sindicato e pelos
servidores.
Para o sindicalista, é lamentável que os partidos tenham se usado do movimento
para atacar o prefeito e esclarece que os partidos foram apenas colaboradores e
tinham seus discursos, mas que a greve sempre teve caráter trabalhista e não
político.
“A reivindicação é trabalhista e em momento nenhum teve a intenção de desgastar
o prefeito. O sindicato foi vitorioso no ponto de vista matemático e de mostrar
que temos representatividade junto aos servidores. A imagem de Hélio se arranhou
por sua própria responsabilidade, e não pelo sindicato, que queria somente
negociar. Enquanto tentávamos um acordo, o prefeito se mostrou ausente e alheio
ao movimento, inaugurando obras e fazendo reuniões”, avalia. |