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10/06/2009

Opinião - A Corte

 

Greve desgasta Hélio mas não fortalece oposição

 

Balanço político da greve mostra que ausência do prefeito nas negociações e radicalização e envolvimento político do sindicato prejudicou tanto a situação quanto a oposição em Campinas

Anderson Botan
Campinas


Com o fim da greve dos servidores municipais, o balanço político que se faz do movimento é que mesmo o prefeito Hélio de Oliveira Santos (PDT) tendo sofrido um desgaste de sua imagem, a oposição, no final, não conseguiu sair fortalecida com isso, pois também se desgastou ao inflamar os servidores com propostas que dificilmente seriam aceitas e fazendo o sindicato perder o poder de negociação e pedir carta branca para decidir na justiça as reivindicações, tirando da assembléia e dos servidores a decisão final. A avaliação é de algumas das principais lideranças políticas da cidade.

Foram 20 dias de paralisação, marcados pela ausência do prefeito nas audiências de negociação e conciliação, deixando a responsabilidade toda para os secretários. Hélio, muitas vezes, ignorou o movimento dos servidores e inaugurou obras pela cidade, enquanto alguns setores da prefeitura paralisavam as atividades ao longo dos dias.

Além disso, atitudes pouco democráticas de seu governo como fechar as entradas do Paço Municipal com tubos de concreto para não permitir a entrada de carros de som no local e sitiar o Paço com Guardas Municipais restringindo o acesso de pessoas na prefeitura, marcou a postura do prefeito durante a crise.

Nesse tempo, a greve foi ganhando força – até a Orquestra Sinfônica aderiu ao movimento – e os servidores saíam em passeatas quase todos os dias, fechando ruas e causando transtornos no trânsito de Campinas, que chegou a registrar recordes de congestionamento. A população foi seriamente prejudicada com as estratégias grevistas de criar fatos políticos.

Com o endurecimento do governo em negociar, creditando esta posição ao fato de a greve passar a ter um caráter político, com partidos de oposição utilizando a greve como palanque para desgastar a imagem do prefeito junto à população, o movimento foi perdendo força e o sindicato aos poucos perdeu o controle da greve, já que os servidores foram inflados com os discursos partidários realizados nos atos políticos e nas assembléias.

Sem entendimento e bom senso das duas partes, a decisão foi parar na esfera judicial. O sindicato teve que ceder às pressões para que tivesse carta branca dos servidores para formalizar um acordo, pois também estava sendo pressionado pela população, descontente com a falta de acordo e por estar sendo prejudicada com a falta de atendimento em setores importantes como a saúde e a educação.

É bom lembrar que a direção do sindicato está nas mãos do PSB, partido de Jonas Donizetti - um dos favoritos às eleições de 2012. Com esse quadro negativo tanto da situação quanto da oposição, nem Jonas Donizetti (PSB), que poderia ter um ganho virtual com o desgaste de Hélio ficou satisfeito. A avaliação das lideranças é que, com a condução política do movimento, o prefeito acabou minimizando os efeitos da greve e ainda terá muito tempo para reverter o quadro até as próximas eleições.

Já os servidores saem descontentes com o desfecho da paralisação, pois prevaleceu o reajuste oferecido pela prefeitura, com uma única diferença, quanto ao reajuste no vale alimentação.

Lideranças

Para o vereador Sebá Torres (PSB) todos saíram perdendo nesta greve. “Ocorreu um desgaste muito grande. O movimento não trouxe aos funcionários o que eles queriam. Não receberam o que poderiam ter, e com isso todos perderam. Deveria ter ocorrido um diálogo maior entre as partes. Toda essa negociação deveria ser antecipada, com conversas constantes, buscando sempre alternativas”, diz.

Torres discorda da forma como os partidos políticos participaram do movimento. “Não se deve confundir partido com sindicato. São coisas diferentes. Apareceram vários partidos para ajudar. Mas quem é o legítimo representante é o sindicato. Os partidos aparecem fazendo uma oposição, dizendo se solidarizar, mas deveriam ter apontado soluções mais concretas”, considera.

Biléo Soares, do PSDB e que tem Carlos Sampaio como maior expoente na cidade, considera que esta greve mostrou que o diálogo não deve ser esgotado. Para ele, o prefeito saiu desgastado, pois não se posicionou diante de duas greves consecutivas e principalmente, se silenciou diante dos questionamentos sobre o reajuste dele, dos secretários e comissionados, que foi de 56% e muito além do que ele oferece para os servidores. “Campinas vai na contramão da história.

O teto cresce e o piso decresce. A desigualdade está grande entre o maior salário e o menor salário da prefeitura. O sindicato mostrou ao prefeito que tem força para manter uma greve, o que fez a prefeitura recorrer ao Judiciário para resolver a situação. Não há vitoriosos e derrotados.

O sindicato acabou ganhando com o abono salarial no vale alimentação, mas o servidor perdeu com o salário. Quando se tem uma greve prolongada, há um desgaste natural. O Legislativo também saiu ganhando ao manter uma posição firme de que só votaria um projeto justo e ao criar a CEE para auxiliar nas negociações”, afirma.

Já o presidente municipal do PSOL, Paulo Búfalo, considera que o movimento foi importante não só para reivindicar um salário melhor, mas para mostrar as condições de trabalho dos servidores públicos, denunciando as falhas que vêm ocorrendo no setor.

“A pauta salarial acabou sendo rebaixada, pois a questão financeira foi considerada apenas no reajuste dos servidores. Quando foi a pauta do governo a questão não pesou e nem foi avaliado pelos vereadores da base quando deram 56% de reajuste ao prefeito, secretários e comissionados. A máquina ideológica do prefeito é muito abastada”, diz.

Para o presidente municipal do PSB, Wanderley de Almeida, em nenhum momento houve disputa política na greve, somente esteve solidário à luta dos trabalhadores diante da intransigência do prefeito em negociar e com o sindicato fazendo o possível para conseguir um acordo justo. “Não travamos uma luta com o prefeito diretamente, fico feliz de o PSB retomar a luta dos servidores públicos, comandando o sindicato. O que fica para a cidade é a incoerência de reajustes dados, para o prefeito e para os trabalhadores. Se isso pode ser tema de novas discussões, o futuro pode dizer isso. No momento não dá para dizer quem ganha e quem perde”, salienta o presidente.

Governo

Já o líder do governo na Câmara, Francisco Sellin (PDT), considera que a greve é uma alternativa do trabalhador de reivindicar melhores condições, mas que neste caso, a manifestação foi prejudicada com a exploração política dos partidos de oposição, criticando o prefeito e a administração, o que prejudicou o diálogo. “A população estava se revoltando contra o movimento”, considera.

Para o vice-prefeito Demétrio Vilagra (PT), a grande vitória da greve foi a democracia no momento de decidir pelo seu fim e pelos percentuais de reajuste. Ele considera que foi injusto por parte do sindicato e dos partidos terem inflado os trabalhadores a ficar contra ao reajuste oferecido pela prefeitura, comparando com os índices dados ao prefeito e aos comissionados, já que o teto estava congelado há seis anos e já era alvo de ações na Justiça.

Quanto à participação do PT dando apoio ao movimento, o vice-prefeito disse que faz parte da história do partido apoiar os trabalhadores grevistas, mas o partido deixou claro que compõe o governo e entendia a posição da prefeitura quanto ao valor que seria dado.

“Toda greve é política, não pode fugir disso. Mas o sindicato errou ao dar palanque para partidos que só inflaram os servidores contra o prefeito, querendo desgastar sua imagem e tentando favorecer outras lideranças. O prefeito não saiu desgastado e não vejo que mesmo tendo o PSB como principal comandante do sindicato, a greve possa beneficiar o deputado Jonas Donizetti, por exemplo”, disse.

Sindicato

O presidente do Sindicato dos Servidores, Marionaldo Maciel, acredita que o sindicato tenha obtido uma vitória nesta greve, já que o objetivo do movimento, que era a reivindicação salarial, teve uma solução benéfica para os trabalhadores. Contudo reconhece não ser a desejada pelo sindicato e pelos servidores.

Para o sindicalista, é lamentável que os partidos tenham se usado do movimento para atacar o prefeito e esclarece que os partidos foram apenas colaboradores e tinham seus discursos, mas que a greve sempre teve caráter trabalhista e não político.

“A reivindicação é trabalhista e em momento nenhum teve a intenção de desgastar o prefeito. O sindicato foi vitorioso no ponto de vista matemático e de mostrar que temos representatividade junto aos servidores. A imagem de Hélio se arranhou por sua própria responsabilidade, e não pelo sindicato, que queria somente negociar. Enquanto tentávamos um acordo, o prefeito se mostrou ausente e alheio ao movimento, inaugurando obras e fazendo reuniões”, avalia.

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