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07/04/2009 - 11:26

Vereadores rejeitam adesivar carros oficiais

 

Mais uma vez, a Câmara de Vereadores de Campinas perde a oportunidade de aprovar um projeto de lei de cunho moralizante ao retirar de pauta ontem a proposta que obrigava a identificação dos carros oficiais tanto do Legislativo quanto da Prefeitura. A manobra do “enterro” do projeto ficou evidente após a maioria dos membros da Comissão de Constituição, Legalidade e Redação mudar decisão anterior, que era favorável à proposta. Depois de ter o posicionamento favorável publicado no último sábado no Diário Oficial do Município (DO), os vereadores Élcio Batista (PSB), Pedro Serafim (PDT), Luis Yabiku (PDT), Professor Alberto (DEM) e Jairson Valério dos Anjos, o Canário (PT), este último relator, recuaram e disseram ser contrários à proposta. Mantiveram a primeira decisão os vereadores Luiz Henrique Cirilo (PPS) e Artur Orsi (PSDB), autor da proposta.

Com a mudança no afogadilho, o projeto iria ser arquivado, segundo anúncio do presidente do Legislativo, Aurélio José Cláudio (PDT), mas, depois da reclamação de Orsi, o pedetista modificou o discurso e afirmou que o projeto seria retirado para ser discutido entre os vereadores. Para alguns parlamentares, a mudança na última hora do voto dos membros da comissão infringiu o regimento interno e está recheada de ilegalidade. De acordo com a proposta, os veículos oficias (próprios ou alugados), além de serem adesivados com o brasão do município, também teriam de ter identificação do poder a que pertencem. O funcionário que transitar com o carro sem a identificação ficaria sujeito às sanções previstas em lei.

Essa é a segunda vez que o Legislativo campineiro rejeita ter os veículos identificados. No ano passado, durante o escândalo da farra do “Sem Parar”, quando os vereadores utilizaram os carros oficiais para viagens à praia, cidades turísticas e para idas e vindas em cidades do interior, os vereadores também votaram contrários a terem os carros “monitorados”.

O assunto, considerado por muitos parlamentares como indigesto, ficou ainda mais polêmico após o anúncio feito por Aurélio de que a comissão havia modificado o parecer. Segundo Orsi, o presidente não poderia ter acatado a decisão da comissão porque só se altera decisão em projetos que tramitam sob urgência, o que não era o caso. O vereador Tadeu Marcos Ferreira (PTB), tido como um dos parlamentares que mais conhece o regimento, apontou ainda um outro ingrediente. “Foi dado publicidade ao ato da comissão”, argumentou. Cirilo, que não quis mudar de opinião, disse que manteve o parecer favorável porque era um “ato jurídico perfeito”.

Aurélio, porém, se defende e alega que não cometeu nenhuma ilegalidade. “Tenho o direito discricionário de retirar a matéria para uma melhor instrução. Fiquei em um impasse porque o próprio relator (Canário) alterou a decisão”, alegou. Canário, por sua vez, disse que também foi surpreendido com a mudança. “Entregaram para mim o processo e disseram que a mudança (de contrário à favorável) iria promover a discussão. Ao invés de colocar adesivo poderia se optar por placas pretas (iguais às utilizadas pela Assembléia Legislativa). Acho que estou desatento ao regimento”, justificou.

Como Aurélio manteve a decisão, Orsi disse que vai recorrer à Justiça. “Não há outro caminho. A aprovação da matéria daria transparência ao poder público. Não votaram porque não querem que os veículos da Prefeitura não sejam identificados”, disse o tucano. Nos bastidores, o comentário era de que os parlamentares haviam recuado após uma ordem do Executivo — informação rechaçada pelo líder de governo, Francisco Sellin (PDT). “Não houve nenhuma orientação do governo. Discutimos que com a identificação tanto os vereadores quanto o prefeito (Hélio de Oliveira Santos) ficariam expostos à (falta de) segurança”, argumentou Sellin.

Explicações

O presidente da comissão, Yabiku, não conseguiu esconder o desconforto de ter voltado atrás de uma decisão. “O voto é mais forte do que esse regimento capenga que temos. Decidimos que tomar a decisão apenas na comissão era muito restritivo. Iremos nos reunir para discutir entre os 33 parlamentares”, alegou.

Élcio Batista, que também mudou a decisão, disse que não foi influenciado por qualquer colega. Segundo ele, a decisão ocorreu depois de refletir sobre as duas situações que a identificação traria. “A positiva é que a população poderia fiscalizar. A segunda é a de que, por questões políticas, principalmente em anos eleitorais, poderíamos ser vítimas de denúncias infundadas. Hoje sou contrário à identificação”, explicou.

Já o democrata Professor Alberto disse que foi alertado de que a proposta poderia ser uma armadilha contra ele mesmo. “E se por um deslize ou irresponsabilidade de um assessor a reportagem o flagrasse e como iria explicar ao jornal (que o ato não foi cometido por ele). Em si não sou contra”, disse. O novato, porém, reclama sobre a falta de regras claras sobre o uso de veículo oficial. “Não o que é permitido ou não”. O colega Biléo Soares (PSDB), que tem utilizado o veículo oficial porque está impedido de dirigir em razão de um câncer na próstata, complementou: “E se eu for na padaria agora. Será que posso? Eu sou favorável à adesivação, mas acho que as regras têm que estar claras.”

Só para lembrar no ano passado, o Correio analisou os dados dos relatórios emitidos entre a segunda quinzena de dezembro de 2006 e os primeiros 15 dias de outubro de 2007 e verificou que os carros oficiais alugados passaram por praças de pedágios que dão acesso aos litorais Sul e Norte, além de outros destinos que denotam uso para fins particulares e eleitoreiros. Em alguns casos, como viagens ao Guarujá, o parlamentar colocou a culpa no assessor. Pressionados, os vereadores decidiram acabar com o contrato com o Sem Parar — sistema de cobrança eletrônica de pedágio.

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