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BILÉO
SOARES
As discussões e algumas ações que estão sendo empreendidas em Campinas no que se
refere ao Centro da cidade e e sua revitalização merecem, por parte de todos
nós, autoridades interessadas no desenvolvimento tanto econômico quanto físico,
mas principalmente humano de nossa cidade, uma postura mais reflexiva e mais
voltada para os legítimos interesses de toda a população e não apenas de grupos
que eventualmente estão no poder.
Mudanças marcantes na região mais nobre da cidade provocam consequências gerais,
nos aspectos arquitetônico, histórico, humano e de qualidade de vida. Tem-se
como base que a memória de um povo se preserva também através de suas obras. Não
é a toa que cidades europeias, onde a preocupação com a preservação memorial é
clausula pétrea de todos os regulamentos referentes a posturas municipais, têm
seus centros medievais preservados, muitas vezes proibidos a veículos e
OPINIÃO reservados apenas para a moradia, para o lazer e para pequenos
comércios.
Campinas não é medieval e muito – quase tudo – de sua história de pouco mais de
230 anos no que se refere a prédios, praças e ruas já foi perdido pelo
inexorável progresso que fez demolir igrejas, teatros, casarões da época de ouro
do café e abrir avenidas que levaram de roldão as construções que hoje seriam
mais que centenárias e que lhes impediam o alargamento.
Só que essa destruição toda, se serviu ao desenvolvimento do que é hoje uma
metrópole, já não mais contenta a pujança que a economia favorável dos últimos
15 anos trouxe à cidade. Há mais carros que nossas ruas e avenidas podem
suportar, o Centro se espreme num mar de prédios, o trânsito é cada vez mais
lento, o transporte coletivo carece de vias exclusivas para fluir com precisão,
enfim, o Centro se alarga rompendo fronteiras em direção aos bairros do
Botafogo, do Guanabara, do Taquaral, do Cambuí e até Vila Industrial, um bairro
até recentemente pacato e bucólico. E tudo isso carecendo de um planejamento
adequado, de normas rígidas a serem seguidas, de comportamentos que visem o lado
humano da cidade. Ou seja: crescemos sim, vigorosamente. Mas sem planos que
enquadrem esse crescimento podemos estar indo em direção ao caos urbano.
Sabemos todos que o progresso é inevitável, próprio dos seres que deixaram de
andar de quatro para dominar todas as espécies, que saíram das cavernas para
conquistar o espaço. Mas é a esse ser superior que temos que atender nos seus
anseios de civilidade, de conforto, de bem estar e de qualidade de vida. Ao
deixarmos que a cidade cresça como se competisse com um inimigo invisível,
estamos deixando de lado a missão que nos foi legada pelo povo através da
representação democrática que conquistamos.
Assim, há que se pensar no progresso, no desenvolvimento e no futuro. E esse
pensamente tem de estar em consonância com o que de mais sensato existe em
termos de crescimento de uma cidade. Há que adequar sim Campinas a uma nova
realidade, mas essa adequação passa pela humanização dos espaços, pelo aumento
da qualidade dos serviços públicos, por normas regulatórias rigidamente
fiscalizadas.
E aumentar a capacidade de moradia de uma mesma região, colocar muito mais gente
num mesmo espaço, erguer prédios cada vez mais altos, não nos parece ser a
solução que o crescimento de Campinas comporta. Pensamos que a radical
preservação do Centro histórico da cidade e a criação de espaços nos bairros
adjacentes, expandindo de maneira ordenada o fluxo do progresso, seja o caminho
ideal para nossa cidade ofereça a seus cidadãos uma qualidade de vida adequada.
Fala-se hoje em mais de seis mil imóveis no Centro de Campinas que poderão
deixar de existir para que, no lugar deles se ergam espigões para moradias que
poderão abrigar até 500 mil pessoas. É um plano arriscado demais, pois o mesmo
espaço que hoje já se mostra exíguo, não comportará meio milhão de seres humanos
a mais. Somos de opinião que o Centro dever ser preservado e revitalizado e que
outros centros surjam em bairros próximos, expandindo a região de maneira
sensata, sem super adensamentos desnecessários e valorizações absurdas, mas
principalmente, sem transformar em poeira a história de uma cidade que não tem
ainda nem dois séculos e meio de vida.
Biléo Soares é vereador e
líder do PSDB na Câmara |