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16/06/2010

Opinião

O passado e o futuro de Campinas

 

BILÉO
SOARES


As discussões e algumas ações que estão sendo empreendidas em Campinas no que se refere ao Centro da cidade e e sua revitalização merecem, por parte de todos nós, autoridades interessadas no desenvolvimento tanto econômico quanto físico, mas principalmente humano de nossa cidade, uma postura mais reflexiva e mais voltada para os legítimos interesses de toda a população e não apenas de grupos que eventualmente estão no poder.

Mudanças marcantes na região mais nobre da cidade provocam consequências gerais, nos aspectos arquitetônico, histórico, humano e de qualidade de vida. Tem-se como base que a memória de um povo se preserva também através de suas obras. Não é a toa que cidades europeias, onde a preocupação com a preservação memorial é clausula pétrea de todos os regulamentos referentes a posturas municipais, têm seus centros medievais preservados, muitas vezes proibidos a veículos e  OPINIÃO reservados apenas para a moradia, para o lazer e para pequenos comércios.

Campinas não é medieval e muito – quase tudo – de sua história de pouco mais de 230 anos no que se refere a prédios, praças e ruas já foi perdido pelo inexorável progresso que fez demolir igrejas, teatros, casarões da época de ouro do café e abrir avenidas que levaram de roldão as construções que hoje seriam mais que centenárias e que lhes impediam o alargamento.

Só que essa destruição toda, se serviu ao desenvolvimento do que é hoje uma metrópole, já não mais contenta a pujança que a economia favorável dos últimos 15 anos trouxe à cidade. Há mais carros que nossas ruas e avenidas podem suportar, o Centro se espreme num mar de prédios, o trânsito é cada vez mais lento, o transporte coletivo carece de vias exclusivas para fluir com precisão, enfim, o Centro se alarga rompendo fronteiras em direção aos bairros do Botafogo, do Guanabara, do Taquaral, do Cambuí e até Vila Industrial, um bairro até recentemente pacato e bucólico. E tudo isso carecendo de um planejamento adequado, de normas rígidas a serem seguidas, de comportamentos que visem o lado humano da cidade. Ou seja: crescemos sim, vigorosamente. Mas sem planos que enquadrem esse crescimento podemos estar indo em direção ao caos urbano.

Sabemos todos que o progresso é inevitável, próprio dos seres que deixaram de andar de quatro para dominar todas as espécies, que saíram das cavernas para conquistar o espaço. Mas é a esse ser superior que temos que atender nos seus anseios de civilidade, de conforto, de bem estar e de qualidade de vida. Ao deixarmos que a cidade cresça como se competisse com um inimigo invisível, estamos deixando de lado a missão que nos foi legada pelo povo através da representação democrática que conquistamos.

Assim, há que se pensar no progresso, no desenvolvimento e no futuro. E esse pensamente tem de estar em consonância com o que de mais sensato existe em termos de crescimento de uma cidade. Há que adequar sim Campinas a uma nova realidade, mas essa adequação passa pela humanização dos espaços, pelo aumento da qualidade dos serviços públicos, por normas regulatórias rigidamente fiscalizadas.

E aumentar a capacidade de moradia de uma mesma região, colocar muito mais gente num mesmo espaço, erguer prédios cada vez mais altos, não nos parece ser a solução que o crescimento de Campinas comporta. Pensamos que a radical preservação do Centro histórico da cidade e a criação de espaços nos bairros adjacentes, expandindo de maneira ordenada o fluxo do progresso, seja o caminho ideal para nossa cidade ofereça a seus cidadãos uma qualidade de vida adequada.

Fala-se hoje em mais de seis mil imóveis no Centro de Campinas que poderão deixar de existir para que, no lugar deles se ergam espigões para moradias que poderão abrigar até 500 mil pessoas. É um plano arriscado demais, pois o mesmo espaço que hoje já se mostra exíguo, não comportará meio milhão de seres humanos a mais. Somos de opinião que o Centro dever ser preservado e revitalizado e que outros centros surjam em bairros próximos, expandindo a região de maneira sensata, sem super adensamentos desnecessários e valorizações absurdas, mas principalmente, sem transformar em poeira a história de uma cidade que não tem ainda nem dois séculos e meio de vida.

Biléo Soares é vereador e líder do PSDB na Câmara

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