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BILÉO
SOARES
Evidentemente que Campinas não merece estar passando pelo que passa na área
cultural. Embora o coordenador de Comunicação da Prefeitura tenha dito, em
recente debate, que a Cultura de Campinas não se restringe aos dois teatros
municipais — um parado há cerca de três anos em obras infindáveis e outro
despencando na cabeça de atores e do público — o fato inegável é que a Cultura
de Campinas passa, principalmente, pelos dois maiores teatros da cidade. Em
suma: uma cidade de mais de um milhão de habitantes não pode ficar sem seus dois
principais teatros (...), porque é nelas que se pratica a vida, é nelas que a
cultura sobrevive, é nelas que se aprende a gostar do canto e da prosa, é nelas
que pulsa o coração artístico que cada um traz dentro de si.
E teatro tem história em Campinas. Desde o São Carlos, que recebia companhias
cariocas, paulistas e europeias, até o Centro de Convivência, palco de peças e
shows memoráveis dos maiores artistas brasileiros, passando pelo demolido e
saudoso Teatro Municipal, a cidade respirou todos os tipos de artes cênicas e
assistiu a tudo, de Carlos Gomes a Tom Jobim, de Carmen Miranda a Gal Gosta, de
Sarah Bernhardt a Bibi Ferreira, dando a todos eles o carinho do aplauso e o
prazer do reconhecimento.
Hoje, não há nem sombra desse passado distante e mesmo de tempos que ainda estão
vivos na memória das atuais gerações. E cremos que será muito difícil explicar a
nossos filhos e netos os motivos pelos quais uma cidade com um passado Cultural
à altura de uma grande capital, em poucos anos se transformou numa caricatura
indesejável, num arremedo do que havia sido, num palco sem luz, sem som, sem
ator, enfim, sem vida.
Nosso primeiro teatro existiu antes mesmo de a eletricidade clarear
automaticamente as salas e de a cidade ter redes de água e esgoto. Era à luz de
velas e de candeeiros a gás que se assistia a peças em meados do século XIX, com
as cadeiras sendo providenciadas pelas próprias famílias. Era a vocação cultural
da cidade, região de grandes fazendas de café cujos senhores mandavam os filhos
estudar na Europa, que se sobrepunha às dificuldades e superava barreiras para
consumir a arte que o mundo mais desenvolvido consumia.
Depois, com a construção do Teatro Municipal Carlos Gomes, inaugurado em 1930,
Campinas passou a ter uma sala de espetáculos à altura de sua importância.
Demolido, por motivos que até hoje permanecem obscuros, em 1965, sua ausência só
seria suprimida anos depois com a construção do Centro de Convivência e da
adaptação do antigo Cine Casablanca, no Teatro Castro Mendes.
Ambos serviram à cidade de modo adequado. Enquanto o complexo do Centro de
Convivência recebia peças e cantores, organizava exposições em seus espaços
internos, levava até grandes concertos na Orquestra Sinfônica no Teatro de
Arena, o Castro Mendes exibia óperas e grandes produções teatrais, além de shows
com maior afluência de público, já que tinha mais que o dobro da capacidade do
Convivência.
Hoje, Campinas vive a lastimar o estado em que se encontram seus dois mais
importantes teatros. E, embora a situação que ora se apresenta não tenha, por
parte das autoridades, um prazo civilizado para chegar ao fim, não podemos
apenas ficar lamentando.
Nós, vereadores, precisamos exigir uma solução rápida para o problema. Ouvimos,
durante os primeiros quatro anos do atual governo, que nunca Campinas recebeu
tantos recursos do governo federal. Portanto, a desculpa de que a reforma
envolve vultosas verbas não pode ser aceita mais. Campinas, hoje, exige que seus
teatros voltem a funcionar e se mantenham funcionando dentro das qualidades que
sempre exibiram. A Cultura da cidade não pode mais ser tratada como se fosse
material descartável sob pena de perdermos nossa própria identidade, cultivada
ao longo de quase dois séculos de portas abertas para os mais renomados artistas
do cenário brasileiro.
Biléo Soares é vereador e
líder do PSDB na Câmara |