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20/03/2010

Opinião

A lagoa abandonada

 

BILÉO
SOARES


Muito se tem falado nas últimas semanas sobre as condições do Parque Portugal, uma das maiores, se não a maior, área de lazer de Campinas. Inaugurado nos anos 70, ele fez com que a região em volta da Lagoa do Taquaral adquirisse aspectos nobres e se transformasse no local ideal para as saudáveis práticas de exercícios físicos, como caminhadas, corridas e outras. Além disso, se tornou área propícia para piqueniques e para apresentação de shows no Auditório Beethoven, uma grande concha acústica ao ar livre que já recebeu grandes artistas e, principalmente, a nossa Orquestra Sinfônica.

Assim que retornei à Câmara Municipal, no início de 2009, decidi realizar um trabalho comum àqueles que são eleitos vereadores em Campinas: fui ver, in loco, as condições de nossas principais praças e áreas de lazer. O que vi me deixou estarrecido e foi objeto de inúmeros requerimentos — todos fartamente ilustrados — solicitando ao governo de Campinas que tomasse providências urgentes para que esses locais voltassem a ter, como em passado recente, condições de frequência da população campineira.

De todas as áreas visitadas, o Parque Portugal foi o que mais me chamou a atenção, pois mesmo com as péssimas condições de uso da grande maioria de seus equipamentos, a frequência por ali continuava elevada. Sua reforma, portanto, se mostrava mais urgente ainda, já que a falta de manutenção e a precária segurança colocavam em risco até a vida dos frequentadores. Mas, infelizmente, de pouco ou nada adiantaram meus protestos feitos da tribuna da Câmara ou meus requerimentos aprovados e encaminhados ao prefeito Hélio de Oliveira Santos. Passou-se um ano inteiro sem que nada fosse feito para melhorar as condições do Parque Portugal. As quadras de esportes ali existentes continuaram com o piso rachado e sujas; o banheiro continuou entupido, fazendo de seu uso um exercício de coragem; a pista continuou sem manutenção, com pedras cada vez maiores a atrapalhar as caminhadas; um pequeno lago paralelo à lagoa continuou fétido, depósito de entulhos; o bosque ali existente e usado para piqueniques continuou com mesas quebradas, com galhos espalhados pelo chão. A caravela, depois de adernar por falta de manutenção, foi interditada às visitas e deixada ao tempo, apodrecendo aos olhos de todos.

E, para confirmar o pouco caso de um governo que diz ter recebido grandes recursos do governo federal como nunca antes na cidade, a única providência ocorrida por ali foi a volta dos antigos pedalinhos — os novos, em forma de cisne, apresentados como grande novidade, não tinham a segurança necessária e um deles tombou no meio da lagoa. Agora eles voltaram e, espera-se, estejam seguros para os usuários.

Tanto desleixo acabou resultando em perigo maior para a população: o bosque, onde famílias inteiras faziam almoços festivos nos fins de semana, virou ponto de encontro para prostituição masculina e sexo casual e de usuários de drogas, afugentando todos que usavam a área como um local saudável de lazer.

Só então, quando o Parque Portugal se tornou um caso de polícia pela presença de drogas e drogados e por seguidos atentados ao pudor, é que as autoridades municipais resolveram se mexer. E assim mesmo após várias reportagens publicadas neste Correio Popular e que expuseram a ferida para toda a cidade: um dos mais belos cartões-postais da cidade estava agonizante e a população corria sério risco de perdê-lo.

Providências agora começam a ser tomadas, mais de um ano depois das minhas primeiras denúncias. É óbvio, são bem vindas. Espero que as reformas, a manutenção e os serviços propostos sejam realmente realizados e recomponham o cenário inigualável deste parque que simboliza a confraternização, a harmonia e a paz entre as pessoas que vivem e amam nossa terra. Portanto, é fundamental refletir e ponderar que o lazer do cidadão é um direito. Nossas praças, nossos bosques não podem se transformar em lixões abandonados. O campineiro paga — e paga um preço elevado — para ter uma cidade confortável e saudável. E, infelizmente, não é isso que estamos vendo.

Biléo Soares é vereador e líder do PSDB na Câmara.

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